The New York Times: Uma mudança na brinquedoteca pode mudar o comportamento das minhas crianças?

O jornal americano publicou um artigo de uma mãe que teve a orientação de uma especialista para organizar e adaptar sua casa para praticar o Método Montessori. O conteúdo é interessante para qualquer família que se interessa pelo método. Traduzimos e adaptamos o conteúdo para o português. No final do texto, há também o link para o texto original.

Simone Davies, professora e autora, ajudou a reformar o quarto de brinquedos dos meus filhos usando os princípios educacionais do Método Montessori – como criar um clima de paz e estimular a autonomia nas crianças.

Por Karen Barrow
11 de abril de 2019

Nosso quarto de brincar estava repleto de brinquedos piscantes cheios de movimento, quebra-cabeças e jogos bem organizados, prateleiras cheias de livros ilustrados, bonecas bastante usadas, fantasias e obras de arte penduradas nas paredes. Parecia um paraíso para nossos três filhos pequenos. Até que Simone Davies virou tudo de cabeça para baixo.

Davies, que é professora especializada em Montessori na Holanda e autora do livro “The Montessori Toddler”, passa seus dias ensinando pais e filhos a aplicar os princípios Montessori em casa. Assim como Marie Kondo está ajudando as pessoas a se organizarem dispensando os supérfluos, Davies ajuda os pais a transformar suas casas em lugares mais funcionais, estimular autonomia dos menores e criar uma maior sensação de paz – tudo no espírito Montessori.

Ela veio até minha casa em Nova Jersey há algumas semanas, com a intenção de mostrar como criar um espaço que de fato envolvesse meus filhos, em vez de um que atendesse minhas noções sobre um bom espaço para brincar. Eu era cética: o que poderia ser feito para percebermos uma melhoria notável em nossas vidas?

Desenvolvido entre o final do século XIX e o início do século XX, pela doutora Maria Montessori, uma médica italiana, o método utilizou abordagens educacionais para ajudar crianças com deficiências emocionais e mentais. Hoje, tornou-se um sistema pedagógico amplamente aceito, que visa dar a qualquer criança mais protagonismo a seu aprendizado.

“Na educação tradicional, o professor fica na frente e lidera a aula”, disse Davies. “Em uma abordagem liderada por crianças, permitimos que aprendam pelo brincar e por seus próprios interesses”.

O objetivo de aplicar esses princípios em casa? Ter crianças mais autônomas e engajadas em suas tarefas; e menos tempo dos adultos ajudando-as a descobrir o que fazer para se distraírem.

Em casa, “estimulamos nossos filhos a fazerem descobertas por si mesmos, damos a eles liberdade e limites e possibilitamos o sucesso adequando nossos lares para que possam participar ativamente do nosso dia-a-dia”, escreve Davies.

Foi essa última parte da promessa que mais me atraiu: meus filhos brincariam sem precisar da minha intervenção? Soava ótimo em teoria. Meu marido e eu temos três filhos, com sete, quatro e um ano de idade, nós dois trabalhamos fora e contamos com uma babá e os avós para nos ajudar. Minha casa era organizada e tudo tinha o seu lugar, mas com tantas pessoas diferentes encarregadas das crianças, muitas vezes era frustrante quando as coisas não estavam onde deveriam estar. Mas se as crianças pudessem lidar com as responsabilidades de manter um quarto de brinquedos arrumado, talvez esse problema fosse aliviado.

Mas quando Davies começou a tirar tudo do armário de brinquedos obsessivamente organizado, um pânico de baixo nível se instalou.

“Quais são os brinquedos favoritos de seus filhos?”, Perguntou Davies.

“O iPad e o Kindle”, eu disse, fingindo estar brincando.

Ela começou a trabalhar. Havia muito a ser organizado – encontramos todas as peças do quebra-cabeça que faltavam! – As cores primárias de nosso cavalete foram pintadas de um cinza neutro, para destacar a arte das crianças. Removemos os brinquedos grandes, distrativos ou barulhentos, e favorecemos outros mais suaves, de madeira. Aproveitamos os móveis e brinquedos que tínhamos, mantendo nosso modesto orçamento.

E o grande resultado: um espaço inquestionavelmente mais organizado, calmo e convidativo.

Aqui estão algumas das mudanças que tiveram o maior impacto:

O canto da leitura

Meus filhos mais velhos costumavam puxar livros de uma estante lotada e freqüentemente os deixavam por toda a casa.

Davies demarcou um canto com uma colcha velha e macia no chão, aconchegada com almofadas e alguns brinquedos. Para minha surpresa, ela retirou todos os livros da estante, agrupou-os no armário para cada criança e colocou apenas alguns em cestos. A estante se tornou um espaço de exibição para pequenas plantas, fotos de meus filhos e algumas de suas lembranças favoritas.

Sem a coleção de livros nas prateleiras, o canto parecia mais calmo. “As crianças se sentem mais relaxadas em um quarto neutro”, disse Davies. Até agora, minhas filhas amam sua nova responsabilidade montessoriana de regar as plantas uma vez por semana (vamos ver por quanto tempo).

Bandejas, cestas e caixas

“Costumamos preparar nossos espaços deixando as coisas fora do alcance das crianças, por isso devemos colocar o que queremos que as manipulem e brinquem ao seu alcance”, disse Davies. Ela usa caixas rasas e bandejas para exibir itens, em vez de escondê-los.

Além das cestas de livros, agora temos duas caixas de lona (que antes ficavam no armário armazenando coisas) no chão para alguns dos brinquedos do meu bebê. Um contém quatro bolas macias, o outro alguns carros de tamanhos e tipos variados.

“Só coloque o quanto você está disposto a guardar”, disse Davies. (“Posso deixá-los vazios?”, perguntei.)

Nas prateleiras, pequenas bandejas de plástico apresentavam diferentes atividades voltadas para as crianças mais velhas: uma para blocos, uma com tesouras, papel e adesivos para artesanato, e uma cheia de pequenas borboletas de plástico com binóculos de brinquedo.

“As bandejas deixam claro para o seu filho o que são conjuntos e quais coisas devem ficar juntas”, disse Davies.

Quando meus filhos mais velhos chegaram da escola no dia da reforma, um foi imediatamente para a bandeja de artesanato e começou a cortar, enquanto o outro montou uma cena de “yoga de borboleta” com a bandeja baseada na natureza.

Menos é mais

Essa é talvez minha lição favorita: as crianças brincam mais quando há menos para brincar.

Em vez de tirar todas as 300 peças do brinquedo magnético que eu mantinha em um saco gigante, a srta. Davies colocou cerca de 20 peças de formas variadas em uma bandeja e o resto voltou para o armário. Em vez de uma caixa de giz de cera ser deixada sobre a mesa, uma dúzia foi colocada em um porta-copos pendurado na parede.

Ainda que alternar entre os brinquedos expostos no espaço exija algum esforço, isso torna o ambiente mais interessante para as crianças. Outro benefício: como eles não estão mais brincando com 100 minúsculos itens, há muito menos para guardar, e as crianças mais velhas podem fazer isso sozinhas.

“As crianças não precisam do tanto que achamos que precisam”, disse Davies. “Elas ficam mais criativas quando há menos.”

Davies prefere brinquedos menos complexos, de madeira ou de aparência mais simples, que tenham um propósito claro – como empurrar carros numa pista, colocar moedas numa fenda, apertar um botão para música – do que brinquedos coloridos e ruidosos – uma dica que não vou esquecer. Nós ficaremos felizes em doá-los.

Espaços com propósito

Meu filho de um ano imediatamente se apaixonou pelo pequeno canto reservado para ele, com um brinquedo simples em cada prateleira, ao alcance de seus bracinhos. (Davies havia baixado a arte para estar no nível da criança; mas ela teve que ser movida de volta por causa daqueles bracinhos – e mãos que agarram.) A menina de 4 anos adorou que de repente havia tesoura e cola para usar à vontade, já que a bandeja em que estavam não continha nenhuma bagunça e deixava claro o que ela podia cortar e colar.

Eu estava um pouco cética sobre a abordagem Montessori no início, mas na prática pude ver lógica, e creio que seja possível até adicionar conceitos baseados em Montessori em outras áreas. Davis sugeriu uma lista de tarefas para a rotina matinal com palavras e imagens para ajudar as crianças a se prepararem de forma mais independente. Pequenos utensílios de limpeza na cozinha, por exemplo, permitiriam que as crianças ajudassem na limpeza após as refeições. Elas vão usá-los? Como o restante deste experimento, não faz mal tentar.

No final, tirei algumas lições bem valiosas da experiência. Meus filhos podem lidar com mais do que eu acho que podem, se eu prepará-los para serem bem-sucedidos. Eles não precisam de tantos brinquedos, livros e jogos quanto os comerciais, os avós e suas próprias reclamações querem me fazer acreditar que precisam. E tenho certeza de que nenhuma reforma, por maior que seja, vai tirar completamente a atração das telas. Mas pelo menos agora, quando é hora de colocar o tablet de lado, há uma atividade configurada, aguardando por suas mentes em crescimento.

Texto original, publicado no jornal The New York Times em 11 de abril de 2019:

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Pilares do Método Montessori

“Nosso cuidado com a criança deve ser governado não pelo desejo de fazê-la aprender coisas, mas pelo esforço de sempre manter acesa dentro dela aquela luz que é chamada de inteligência.” – Maria Montessori

Desenvolvido no início do século XX pela médica e educadora italiana Maria Montessori, o Método da Pedagogia Científica, hoje conhecido como método Montessori,tem sido aplicado em escolas ao redor do mundo, do berçário ao ensino médio. Esta metodologia é sustentada por seis pilares:

1. Autoeducação – De acordo com Montessori, as crianças são capazes de aprender sozinhas. Em um meio adequado, elas podem desenvolver suas competências de forma independente e livre. Para que isso seja possível, há materiais especialmente projetados para serem manipulados pela criança, oferecendo desafios progressivos e dando a ela a chance de perceber seus próprios erros e aprender com eles. A liberdade proporcionada por esta abordagem permite que a criança repita o exercício quantas vezes precisar, até descobrir a sua conclusão. Esta oportunidade de testar hipóteses possibilita à criança a autoeducação.

2. Educação Cósmica – A percepção correta do meio ambiente e a noção de que todas as coisas estão profundamente conectadas fazem com que a criança se reconheça como parte desta imensa cadeia de relações. Assim, ela desenvolve empatia com tudo o que há no mundo e compreende a ordem que rege o universo. Isso dá a ela consciência do seu papel na natureza e da sua contribuição com o ciclo natural do ambiente, além de estimular sua imaginação, despertando o desejo de saber sempre mais.

3. Educação como Ciência – O método Montessori foi baseado no método científico de investigação de hipóteses. O educador, portanto, é um constante obervador do comportamento individual e coletivo dos seus alunos, e determina a partir desta observação as suas hipóteses para oferecer as atividades mais adequadas ao desenvolvimento dos seus alunos naquele momento.

4. Ambiente Preparado – A espécie humana evoluiu em um ambiente complexo e desafiador, do qual se afastou pouco a pouco conforme desenvolvia formas de dominar o meio natural. Embora a capacidade de alterar a natureza tenha sido fundamental para nosso sucesso e sobrevivência, perdemos com isso muito do que possibilita um desenvolvimento cognitivo adequado, especialmente durante a infância. No Método Montessori, nos esforçamos para devolver à criança a oportunidade de interagir com um ambiente de liberdade e independência, onde tudo é projetado para a ação infantil. Um ambiente onde ela interage de forma plena, aprendendo naturalmente, movida por sua curiosidade inata.

5. Adulto Preparado – O adulto preparado precisa primeiramente ter a percepção de que sua condição não o faz melhor do que a criança, mas apenas diferente em termos de habilidades. Ele tem consciência de que criança que não corresponde às suas idealizações, planos e vontades, uma vez que é um ser único e distinto. No livro “A Criança”, Montessori disse que é preciso exercitar a humildade, incorporando a empatia e a caridade em todas as nossas ações para com a criança. O adulto preparado é um observador neutro, que identifica na ação infantil as indicações daquilo que a criança precisa no momento. Ele sabe quando intervir e, principalmente, quando não intervir. “Nunca ajude uma criança numa tarefa em que ela se sente capaz de fazer”, disse Montessori sobre o educador. O principal papel do adulto preparado é ser um guia, um exemplo de comportamento, e garantir a segurança física e emocional do aluno, passando a ele a certeza de que estará presente para auxiliá-lo quando preciso.

6. Criança Equilibrada – De acordo com Maria Montessori, quando a criança tem oportunidade de ter atendidas suas necessidades de desenvolvimento, ela atinge um estado emocional e psicológico de concentração e realização plena. Isso traz a ela generosidade, iniciativa, independência e empatia, que possibilitam a consideração pelo outro. Fazer com que a criança alcance este equilíbrio natural, que de certa forma pode ser entendido como a verdadeira “natureza humana” é objetivo de todo educador Montessori.
Quando todos estes pilares são observados pelo educador como os alicerces de sua ação pedagógica, a criança se desenvolve plenamente, de forma completa e equilibrada. Neste contexto, ela alcança a felicidade e está preparada não apenas para os desafios do ambiente escolar, mas também para sua convivência e ação no mundo. Crianças cientistas, adultos transformadores.

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O Pedagogo Cientista

Damos o nome cientista ao tipo de pessoa que sentiu a experiência como um meio que o guia a buscar a profunda verdade da vida, a levantar um véu de seus fascinantes segredos” – Maria Montessori

Estamos acostumados a pensar em cientistas como pessoas vestindo jalecos brancos, trabalhando rodeados de tubos de ensaio e equipamentos altamente tecnológicos. Essa imagem representa bem alguns desses profissionais,mas nem todo cientista se encaixa no estereótipo. Na verdade, a ideia que geralmente temos do profissional que se dedica à ciência raramente considera o que de fato faz com que alguém possa ser denominado cientista. Não é o laboratório, a genialidade ou os equipamentos de última geração que definem a profissão, mas sim a metodologia adotada pelos que a ela se dedicam. Pode ser surpreendente para alguns, mas a ciência abarca muito mais que aquilo que o senso comum costuma associar a ela. É raro, por exemplo, que a maioria das pessoas considere o pedagogo como um cientista. Mas ele pode ser, e sua prática nada fica devendo a de seus colegas de outras áreas.

O profissional de pedagogia, especializado no método Montessori, não é apenas alguém dedicado ao ensino, preparado para lecionar, coordenar ou dirigir instituições escolares. A princípio, e antes de tudo, é um pedagogo cientista, pois sua atuação baseia-se no método científico: um conjunto de procedimentos por meio dos quais o é possível seguindo etapas pré definidas.
A primeira delas e a mais importante é a observação. Nessa etapa, o pesquisador observa um determinado comportamento ou necessidade . No caso do pedagogo especializado no Método Montessori, o objeto de estudo é a criança, e é a ela que vamos observar sem julgamento, evitando ideias pré concebidas e opiniões pessoais.
A partir daí, partimos para a segunda etapa, a de elaboração da situação. Essa é a chamada fase de questionamento, quando o cientista irá elaborar perguntas sobre o objeto de estudo. No caso de Montessori, a pergunta foi tão simples quanto difícil de responder: O que, de fato, é a criança?

A partir do questionamento, passamos à terceira etapa do método, a das hipóteses. Nela, o pesquisador responde as perguntas feitas na fase de questionamento, a partir de seu conhecimento prévio sobre a criança. Montessori utilizou-se de todo conhecimento disponível sobre a infância em sua época, lançando mão de impressões pessoais e baseando-se na contribuição de outros pensadores. O momento de questionamento exige cautela, pois as respostas dadas agora serão o ponto de partida para a próxima fase, a da experimentação.

Dentro da fase de experimentação, experimentos e pesquisas são feitos com base nas hipóteses levantadas, para assim encontrar a resposta para cada um dos questionamentos que foram elaborados. Cada cientista desenvolve essa etapa de acordo com os conhecimentos que possui e as práticas que são necessárias para o esclarecimento de cada hipótese.
A partir daí, será iniciada a etapa de análise dos resultados, quando se verifica estes são suficientes para explicar cada questionamento e na qual nos certificamos de que eles estão de acordo com as hipóteses.
Em sala de aula, utilizamos das mesmas fases do método de pesquisa científico: observação, questionamento, hipótese, experimentação, resultados e conclusão. Como pedagogos, nossa tarefa é a de sermos pesquisadores críticos da ação educativa. Uma vez que observamos todas essas etapas em nossa atuação diária, podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o pedagogo especializado em Montessori é um cientista, e seu objeto é o fenômeno educativo.

Montessori descobriu a criança, e colocou sua descoberta à prova através do método científico. Ela descobriu que a criança tem características únicas que se manifestam melhor quando na liberdade de um ambiente preparado. Percebeu que, embora cada criança seja única, todas possuem um processo de desenvolvimento semelhante, passando por períodos específicos, nos quais certos aprendizados se dão mais facilmente, e funcionam melhor auxiliados por determinados meios. A aplicação desta descoberta – validada através do método científico, é o que conhecemos como Método Montessori. Um método que pretende fazer com que a criança encontre seu lugar no mundo, e no qual o educador deve criar condições para que ela o faça. Dessa forma, o caráter científico de nossa metodologia é perene, uma vez que precisamos necessariamente ser analíticos e observar as etapas da metodologia científica para elaborarmos um planejamento pedagógico coerente com o que concluímos observando nossos alunos e formulando questões acerca daquilo que vemos.

Temos orgulho ao afirmar que somos herdeiros de uma iniciativa revolucionária, que ousou romper com as hierarquias rígidas e relações de poder verticalizadas, características que até hoje são observadas no método de ensino convencional , e buscou descobrir aquilo que era melhor para o desenvolvimento da criança. O próprio conceito de Pedagogia Científica foi cunhado por Montessori, e era dessa forma que ela se referia a ao método posteriormente rebatizado com seu sobrenome. Por meio da observação das ações da criança, Montessori descobriu – as melhores formas de estimular o desenvolvimento infantil, colaborando para construir o equilíbrio interior e a felicidade na vida da criança.

O que Maria Montessori fez foi muito além de “melhorar” o processo educativo convencional. Ela trouxe a ciência para o campo da pedagogia, assim como Rousseau trouxe a filosofia: Nosso método pode ser repetido em qualquer lugar do mundo, com crianças de qualquer etnia ou classe social, gerando os mesmos resultados em todos os contextos sócio culturais. Assim, a descoberta de Montessori é uma hipótese comprovada, seus experimentos são replicáveis e seus escritos são documentos científicos valiosos. Sua Pedagogia Científica transformou-se em método, e seu fundamento permaneceu sendo a ciência. E como toda grande descoberta, a pedagogia científica tem a capacidade de transformar a realidade como a conhecemos.

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Caso "MOMO": Como proteger nossos filhos.

Fake news ou não, não é a primeira suspeita de influência negativa da internet a crianças e adolescentes – há menos de um ano, muito se falou sobre o desafio da Baleia Azul, suspeito de estar relacionado a casos de suicídio de adolescentes, e mais recentemente vimos o poder da influência da Dark Web no caso do massacre na escola de Suzano. Mas como efetivamente proteger nossas crianças e jovens desses conteúdos?

Por Vivian Mozas, diretora pedagógica da Senses Montessori School

Há alguns dias, pais têm demonstrado preocupação com supostos conteúdos de um monstro chamado Momo, que teriam sido inseridos no meio de vídeos do Youtube Kids para aterrorizar crianças e incitar o suicídio infantil.

Ainda que alguns sites de notícias internacionais, como o Guardian, tenham associado estas notícias a fake news e o Youtube tenha se pronunciado informando que nada foi identificado, no Brasil a revista Crescer divulgou um depoimento de uma mãe que se diz vítima do conteúdo impróprio e este assunto chamou atenção até do Ministério Público da Bahia, que notificou no ultimo sábado os escritórios do Whatsapp e do Google no país para retirarem o conteúdo de suas redes. E, com isso, muitos outros portais e veículos de imprensa também passaram a dar atenção ao assunto.

Fake news ou não, não é a primeira suspeita de influência negativa da internet a crianças e adolescentes – há menos de um ano, muito se falou sobre o desafio da Baleia Azul, suspeito de estar relacionado a casos de suicídio de adolescentes, e mais recentemente vimos o poder da influência da Dark Web no caso do massacre na escola de Suzano.

Mas como efetivamente proteger nossas crianças e jovens desses conteúdos?

O Método Montessori entende que até os seis anos a criança não tem percepção da diferença entre fantasia e realidade. Por exemplo, uma criança pequena exposta a um livro em que um cachorro dialoga com uma fada não tem condições de saber que cachorro não fala e fada não existe. O aprendizado infantil no Método Montessori é concreto  e a criança cria suas percepções e conceitos abstratos e por meio de experiências exatas e sensoriais. E é essa experiência real que será a base da criança para a sua imaginação e pensamento crítico, a ser desenvolvido naturalmente ao decorrer dos anos.

Portanto, qualquer exposição a fantasia nos primeiros anos de vida confunde a percepção sobre o real, e é por isso que um conteúdo como a Momo tem potencial de amedrontar e gerar traumas a crianças pequenas.  Valorizar o real é a melhor forma de trabalhar na criança a segurança e a percepção correta do mundo e de enfrentar, quando necessário, esses medos.

Mas isso não significa que o Método Montessori não valoriza a imaginação. “O faz-de-conta saudável, assim como o desenho de observação, a escrita e diversas outras formas de arte são, para Montessori, imaginação. A crença imposta em personagens variadas, o faz-de-conta ilusório e até o medo de seres mágicos são formas de fantasia. A primeira se desenvolve naturalmente quando a criança é deixada em liberdade, a segunda surge a partir da vontade do adulto”, escreveu Gabriel Salomão em texto sobre datas comemorativas no  Lar Montessori.

Fatos como este são também oportunidade para refletirmos sobre a supervisão e a atenção plena que é dever do adulto com a criança. Observar o seu comportamento e expor a criança apenas a conteúdos em que haja certeza de que são seguros é um dever do adulto sobre este ser humano em formação.

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Mitos sobre o método: O método Montessori permite que as crianças façam tudo o que querem?

No caminho de aprender a fazer escolhas e se responsabilizar por elas, de aprender a avaliar a validade de seus atos, de aprender a ser e se relacionar adequadamente com todos visando ao bem estar comum, a criança vai estabelecendo os parâmetros para a liberdade e conhecendo seus limites: os limites sociais , os limites físicos , os que precisa respeitar e os que pode transgredir . – OMB

É comum que pais e responsáveis se questionem sobre a liberdade no Método Montessori. Afinal, o conceito de “liberdade”, em nossos dias, tem sido muitas vezes interpretado erroneamente como sinônimo de falta de disciplina. Sabemos que conceitos são mutáveis ao longo do tempo, e que determinadas terminologias podem induzir ao erro, especialmente quando são citadas fora de seu contexto. O conceito de liberdade em que trabalhamos é muito mais próximo à consciência do nosso potencial e daquilo que podemos fazer dentro do ambiente em que estamos*.

Para Maria Montessori, a liberdade está diretamente relacionada à disciplina, ao respeito e à capacidade para fazer escolhas. Para ela, seres humanos devem agir assertivamente, conhecer as regras do entorno social, a ética a elas atrelada, manifestar respeito pelo outro e desenvolver o autocontrole. Assim, a liberdade é um exercício de disciplina que se desenvolve no dia a dia, através da aquisição de responsabilidades, do entendimento empático das vontades e direitos do outro. A conquista da liberdade, para o educador montessoriano é um processo a ser desenvolvido pela criança, com a ajuda de adultos preparados e de outras crianças que compõem o ambiente para que possam desenvolver seu potencial e descobrir seus talentos, compreendendo os valores do respeito mútuo e os limites sociais presentes em sua cultura de origem.

Nossa prática pedagógica busca formar indivíduos realmente livres, conscientes de seu espaço e do espaço do outro, dos seus direitos e dos direitos dos outros, das suas responsabilidades e das responsabilidades dos outros, para que possam se tornar seres humanos plenos. Para tanto, é importantíssimo que desenvolvamos laços com as famílias que compõe a comunidade escolar, compreendendo cada particularidade, estimulando a criança a ser capaz de exercer e usufruir plenamente da condição humana. Famílias que procuram compreender estes valores são parceiras fundamentais para que possamos ensinar as crianças a perceberem seus limites, o que naturalmente resulta na disciplina  que torna possível um convívio social no qual pessoas amáveis pautam suas ações pelo respeito e pela ética. Sim, nossas crianças são livres, pois a verdadeira liberdade só pode ser exercida através da consciência de nossos próprios limites.

 

*Para saber mais:

http://aldeiamontessori.com.br/birras-liberdade-limites/

https://larmontessori.com/category/disciplina/

https://www.abc.net.au/radionational/programs/philosopherszone/modern-day-stoicism/5896364

https://modernstoicism.com/stoic-parenting-part-one/

http://montessoritraining.blogspot.com/2017/06/montessori-today-freedom-responsibility-student-work-journals.html

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ADAPTAÇÃO ESCOLAR SOB A ÓTICA MONTESSORI

Este é um dos primeiros momentos em que os horizontes da criança se expandem significativamente e sua habilidade de socialização é desenvolvida. E ele não precisa ser traumático para o aluno ou sua família!

Adaptar-se é a habilidade de se sentir confortável em um situação antes desconhecida. Para ser capaz de se relacionar com a sociedade, a criança precisa compreender seu funcionamento e sua dinâmica. A compreensão do mundo é algo que precisa ser ensinado, e a preparação para esta convivência se inicia no seu relacionamento familiar.

Ao ser apresentada à escola, a criança tem uma de suas primeiras experiências de convivência fora da família. Mas embora esteja acompanhada de um ambiente desconhecido e da separação física dos adultos em quem ela mais confia, esta fase não precisa ser traumática e nem deve ser vista como um mal necessário. Ao contrário, entendemos que é um momento importante da primeira infância, que proporciona ganhos no desenvolvimento e socialização. Se antes o círculo social se resumia aos familiares e amigos, no novo ambiente as crianças aprendem a conviver com pessoas de realidades e contextos diferentes. E dentro no nosso princípio de educação acolhedora e empática, o respeito às necessidades de ordem e à confiança é fundamental.  Escola e família precisam trabalhar juntos para transmitir esta segurança. Um princípio Montessori bastante importante neste momento é antecipar esta mudança. É importante que a família converse com a criança e apresente de forma simples o novo hábito e o ambiente.

É fundamental também que esta conversa traga a consciência de que a escola não atende apenas uma necessidade dos adultos da família que precisam trabalhar, mas permite à criança a oportunidade de se desenvolver. A educação é determinante na formação de um adulto pleno e livre, e ao relacionar a escola com uma necessidade dos pais, associamos a mudança de rotina a algo negativo, o que prejudica a segurança e o desenvolvimento da autonomia da criança.

E não é apenas ela que precisa de preparação para este momento. Como qualquer mudança de rotina, o ingresso na escola impacta toda a família, e os pais também precisam se adaptar. É natural o sentimento de culpa pela separação momentânea e pela frustração natural causada por ela, ou uma angustia por se dar conta que o bebê cresceu ou está crescendo. Mas as crianças pequenas precisam sentir a confiança dos seus responsáveis para sentir-se seguras também – elas são bastante sensíveis a todos os estímulos e sinais do meio – e por isso Maria Montessori as denominou de mentes absorventes. Ter consciência de que estão fazendo o melhor para a sua criança dentro das condições e informações que possuem, confiar na instituição e no método que escolheram, e ser paciente no processo, que é individual à cada família, é fundamental para que a criança compreenda a nova realidade e seja capaz de lidar com ela.

Mas como é realizada a adaptação em uma escola Montessori? Começamos pelos princípios que guiam todo o trabalho proposto pelo Método: cada criança é única, assim como cada adaptação, e o respeito às necessidades dela é que determinará a dinâmica do processo. Para iniciar uma relação de confiança, o educador acolhe a família em um dos ambientes da escola. À medida que a criança se sente confortável, o adulto responsável se ausenta por pequenos períodos, em um processo de primeiro deixar o ambiente, e depois de deixar a escola. Estes fatos são sempre antecipados à criança, seguindo outro princípio Montessori de sempre dizer a verdade, fundamental para a construção de uma relação de segurança entre a criança e o educador. Essa fase exige paciência, firmeza e a certeza de que será superada. Há casos de crianças que se adaptam no primeiro dia, assim como outras em que há necessidade da família retornar por mais um tempo à escola. Não há tempo nem protocolo determinado para a conclusão da adaptação. A criança é o nosso guia, e ao seu tempo, ela percebe que a escola é seu ambiente. E demonstra esse conforto explorando atividades com prazer, atuando no mundo como a pequena cientista que é.

Por meio do entendimento profundo do universo da criança, Maria Montessori percebeu que acolhimento, compreensão e cuidado são a chave para o sucesso de qualquer esforço educativo, inclusive o do primeiro passo para uma jornada de aprendizado, que é a adaptação escolar.

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